segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

MATSUURA SEIZAN (1760-1841)



                     Matsuura Seizan é o autor de muitas obras sobre a esgrima e graças a elas deve a sua notoriedade. Com a idade de vinte seis anos alcançou o mais alto grau na escola que freqüentava. Esta escola, que continuou até o ano de 1908, chamava-se “Shin kei to Ryu”, (shin = espírito; kei = forma ou técnica; to = espada; ryu = escola). Seizan interpreta esse nome dizendo que o espírito é muito importante para o progresso na esgrima, mas que se começa a formar o espírito durante a aquisição das técnicas.
                        Da época de Musashi os tempos mudaram e os combates até a morte com a espada são menos freqüentes. De fato, vive-se naquela época em um período de paz feudal. A prática da esgrima é regularizada e faz parte da vida dos bushi (guerreiros). O treinamento de combate nos DOJÔ assumiu uma grande importância. É praticado com espadas de madeiras, e com o tempo, com espadas de bambu (shinai) e com proteções especiais que permitem de golpear mais livremente para o progresso da técnica.
                     Nos seus escritos Seizan diz: Quando se golpeia é melhor ter o espírito do vazio, não olhar a espada do adversário. Deve afastar todas as preocupações, como se confiasse na potência de um deus; então não se deve nem sentir que se golpeia pelo próprio movimento. Quem não acredita nas palavras do mestre nunca alcançará o último estágio. Mas, também quem acredita demais no mestre que diz que com a técnica você será invencível, também nunca alcançará. É necessário reflexão.
                     Na esgrima, existem técnicas em que você pode vencer pelo efeito surpresa. Mas, isso acontece porque o adversário não conhece suficientemente bem as técnicas da esgrima. De fato, os movimentos dos membros do corpo são mais ou menos sempre os mesmos, não existem movimentos que não se possam prever. Por esse motivo, conhecendo bem esta regra, se estuda minuciosamente os gestos do adversário e se consegue prever, sejam as técnicas ordinárias e também as técnicas secretas. Mas, deve-se com reflexão, adestrar-se o mais possível no combate. Esse é o meio para descobrir as regras. Nesse caso, o combate não é um combate até a morte, mas sim do combate de Dojô para melhorar a sua perícia.
                        Geralmente, pensa-se que o momento mais importante é quando se começa a duelar. Mas, isso é só um detalhe. O que é mais importante acontece antes que a espada seja extraída da bainha; antes que se troque um golpe. Não existem derrotas que possam surpreender quando se combate com negligência e cometendo erros técnicos, pois pode estar certo que a derrota será assegurada.
                        Na vida real, o que é feito não pode ser repetido. Por exemplo, no teatro antes de se apresentar, ensaia-se até que não se cometa nenhum erro. Então, é estúpido pensar que seja suficiente treinar bem no Dojô, uma vez que O Dojô é como o palco de um teatro, mas não como a vida real, pois, na vida real  não é possível repetir um gesto errado. Mesmo ganhando um combate e tendo recebido elogios não se deve convencer-se de que a sua técnica seja superior. Segundo o espírito da escola de Seizan, a vitória momentânea não é a vitória da vida. Mesmo que se tenha vencido um adversário, isto não quer dizer que o tenha vencido para sempre.

CONCLUSÃO DO AUTOR DO “LO ZEN E LA VIA DEL KARATE”
KENJI TOKITSU.

Os aspectos característicos da técnica da esgrima em cada um destes autores (samurai) refletem também a época em que eles viveram. Cada um deles colocou mais pontos relativos a teoria ou talvez na lógica da esgrima, pontos relativamente difíceis de evidenciar, pois estão impregnados da moral e da ideologia. De fato, para estes autores a arte da esgrima é intimamente ligada aos valores religiosos, éticos e sociais. Mas, entre todos eles existe um ponto comum, o destaque espiritual ou de “vazio”. E, devemos sublinhar que o destaque espiritual para eles não é um fim em si mesmo. Está na base do domínio da eficiência da espada; se trata de um estado espiritual como ponto de partida em que se tornaram capazes de reagir em modo oportuno em qualquer circunstância.   
 


Próxima postagem “Métodos de ensino e técnicas de treinamento na aprendizagem do karate” elaborado pelo Aldo Lubes Sen-sei.    

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

ITSUSAI CHOZANSHI


                             ITSUSAI CHOZANSHI

Niwa Jurozaemon, mestre de esgrima, também conhecido sob o apelido de Itsusai Chozanshi ( 1659-1741). Ele escreveu um livro “Tengu geijutsu ron” ( Perguntas ao deus das artes marciais), Tengu é uma divindade dos cabelos vermelhos e com nariz comprido, muitas vezes representado nas esculturas japonesas, é e, considerado o especialista nas artes marciais.
 O livro refere-se as perguntas de um jovem samurai e as respostas de Tengu.

Pergunta: Como fazer para melhorar a minha habilidade?

Resposta : Paralelamente ao progresso da técnica, o corpo e o espírito devem se fundir em uma única entidade. Depois apareceram as razões contidas nas técnicas. Quando a técnica for perfeitamente assimilada, a técnica e as razões formarão uma única entidade, o espírito se torna estável e se movimenta livremente. Este é o sistema de aprendizado das artes marciais. Por isso, o progresso no Budo, o adestramento é a coisa mais importante. Sem o amadurecimento das técnicas, não terá unificação do espírito e do corpo. Se o espírito e o corpo não se unem, os gestos serão separados e não se pode reagir com naturalidade.

Pergunta: Dizem que alguns grandes mestres de esgrima alcançaram o mais alto nível depois que encontraram um monge zen. Porque?

Resposta: O monge zen não mostrou o ultimo estagio da espada. Quando o espírito está vazio,é possível reagir de forma oportuna ao que vai acontecer. De contrario, se apegar demais a vida fica-se atormentado, cai-se na angustia e nas preocupações, e isso coloca em perigo a vida. Aqueles mestres se adestraram sem pausa na esgrima por anos a fio, sacrificando até as horas de descanso, forjaram o próprio espírito, aprimoram as próprias técnicas engajaram muitos combates, se esforçaram por diversos anos, mas não encontraram o estado de Satori ( REVELAÇÃO). Então, quando encontraram um monge zen que explicava as razões da vida e da morte, entenderam que todos os fenômenos não são nada mais que o reflexo dos movimentos do espírito. Daí para frente, os problemas deles sumiram, eles alcançaram a estabilidade do espírito na separação de tudo e chegaram a servir-se das técnicas com grande desenvoltura, por que no curso dos anos de treinamento tinham alcançado a necessária formação. Não chegaram a este estagio de repente. Aqueles que não possuem o fundamento das artes marciais não chegarão nunca ao estado de SATORI, mesmo encontrando um grandíssimo mestre zen.

Pergunta: Tenho muitos alunos jovens, como deve ser ensinada a arte da esgrima a eles?

Resposta: Aos jovens que ainda não tem a capacidade de entender as razões, antes de tudo deve se ensinar as técnicas de desenvolvimento do corpo necessárias as suas idades, sem muitas explicações. É necessário que desenvolvam a solidez dos membros. Depois habitua-los a um treinamento espiritual, com a finalidade de preparar-los ao aprendizado do ultimo estagio. Este é o processo do adestramento. Se desde o começo, sem que tenham adquirido uma técnica segura, se ensina que o espírito do vazio faz surgir naturalmente as técnicas ou que a flexibilidade domina a rigidez e a força, ou que o aprendizado das técnicas não é fundamental, eles perderão o sentido da vida e não aprenderão nem as técnicas corpóreas e nem as técnicas mentais.

Pergunta: O que quer dizer a imobilidade em movimento, e a calma sem calma?

Resposta: O homem é fundamentalmente ativo, e não pode ficar imóvel. Na vida social, os movimentos são diversos, mas aqueles que seguiram o DÔ (Caminho) e dela se desprenderam, podem manter o espírito calmo sem ser perturbados pelo ambiente. Por exemplo, se circundado por muitos inimigos e ocupado no combate a esquerda e a direita, se afasta o espírito da salvar o corpo, o espírito será estável e não vai ser influenciado pelos inimigos. Este estado é chamado da imobilidade em movimento.

Calma sem calma, quando o espírito de um homem não é influenciado por sentimentos de prazer, ira, tristeza, ou alegria, o espírito deste homem está vazio desprendido de tudo. Neste estado, ele pode reagir livremente a qualquer mudança externa.
Por isso a calma sem a calma refere-se junto com o essencial e os atos. Na frente de um adversário, o espírito é calmo como um precipício profundo, sem ódio, nem medo e sem tática, mas quando o adversário ataca, se consegue reagir muito livremente. O corpo se move, mas o espírito não perde a calma essencial, como um espelho calmo e claro em que tudo se reflete, sem que porém  fique alguma imagem quando tudo some. Assim é a força estranha do essencial do espírito. Ao contrario, um homem medíocre perde o seu verdadeiro espírito quando se move, pois será arrastado pelos seus sentimentos, e quando acalmar perderá a sua vitalidade e não será capaz de reagir as mudanças do ambiente que o circunda.

Pergunta: Não entendo a interpretação do zan-shin (permanecer-o espírito), fornecida por muitas escolas.

Resposta: Quer dizer que através das técnicas treinadas não se movimenta o essencial do espírito. Se, si tem a essência do espírito sólido e firme, se pode reagir sem erros ao que acontece. O mesmo se deve dizer da vida.  Se você dá um golpe de espada com a intenção de chegar no fundo do inferno, o Eu não muda, então você pode se mexer para frente para trás, a direita ou a esquerda com plena liberdade, o espírito não é arrastado da vontade. A justa decisão vem do espírito, e suficiente reagir seguindo-o, é difícil explicar essas palavras, e é perigoso não entender bem.

Pergunta: Se entendo bem, a técnica do katana é ditada pelo espírito, mas porque existem técnicas secretas?

Resposta: A razão da espada é a razão universal. Se eu tenho condições de entender, porque não deveriam entende-las  todos? Se faz segredo para os principiantes. Os principiantes não manteriam firmeza na própria vontade se não existissem segredos. O segredo é um meio para se fazer entender melhor. A técnica segreda então, nada mais é que um detalhe parcial das técnicas, não consiste no essencial delas. É ruim que o principiante, que não tem capacidade de apreciá-las, entenda mal algumas técnicas e também e mal que as transmita. Por isso, então, algumas técnicas são ensinadas somente a aqueles que as entenderam. Mas quanto ao essencial, deve falar abertamente para todos, sem esconder nada. 


quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Ito Ittosai

Ito Ittosai – parte 2.

A propósito do treinamento, ao fim que a tática não preceda a técnica é necessário manter o espírito vazio sem deixar lugar a pensamentos inúteis, como a lua que se reflete na água, somente assim consegue-se reagir em qualquer circunstância. Como a água não tem forma rígida, mas assume a forma de um recipiente, redondo ou quadrado, ou de qualquer outro tipo de recipiente, assim o treinamento não deve se plasmar em uma forma rígida e os movimentos da espada devem preceder as posturas do corpo. O caminho da espada consiste simplesmente em vencer com a espada, por isto que a espada compreende as técnicas, que estão fundamentadas sobre as razões. O espírito é o fundamento das técnicas, as posturas do corpo são os fundamentos dos movimentos da espada.
Geralmente, o essencial esta em baixo e o detalhe na superfície: isto consiste em vencer sempre. Mas quando o detalhe está em baixo e o essencial na superfície, a vitória se consegue por acaso. É então necessário aperfeiçoar-se no essencial e adestrar o detalhe.
Existem duas maneiras para superar o adversário: em TAI e em YU. O primeiro, em TAI, consiste em manter a mesma postura sem mudanças e atacar; o segundo em YU, consiste em mudar a postura segundo a situação e atacar rapidamente quando surgir o momento oportuno.
ITOSAI diz: “quando se precede o adversário em TAI, deve-se atacar partindo de uma postura constante, e para a defesa reage-se segundo a situação, com o objetivo de contrastar a tática do adversário.
Garantindo-se na defesa, ataca-se frontalmente. Neste caso, a tática é essencial e as técnicas secundárias. Quando se precede o adversário em YU, ataca-se com posturas variadas, mas deve se defender com uma postura constante, com o objetivo de destruir a defesa do adversário e contrastar as técnicas. Desta forma o ataque deve ser efetuado de uma distância longa. Neste caso, a técnica é essencial e a tática se torna secundária. Se, a propósito do ataque e da defesa, não se discerne nas técnicas e as razões de TAI e YU e se esforça para ganhar de qualquer jeito, estarás se comportando como se estivesse oferecendo a garganta ao adversário. É obvio que ocorre desenvolver a destreza.”
ITOSAI diz: “chamo técnica do papagaio aquela que consiste em apropriar-se das técnicas que o adversário quer utilizar. Quando o adversário ataca com força, responde-se com força, quando ataca devagar, responde-se devagar, quando ataca se bloqueia o ataque, quando ele está para bloquear se desvia o próprio ataque. Neste modo escolhe-se a própria tática seguindo a do adversário. Quando o adversário ataca com um espírito ausente de fingimento, se responde frontalmente, e quando o adversário finge distração, se reage com uma finta, quando o adversário demonstra fraqueza mesmo sendo dotado de grande capacidade, se faz a mesma coisa. Às vezes demonstra-se fraqueza escondendo a própria verdadeira força, às vezes ataca-se fazendo parecer que o próprio ataque seja uma finta, às vezes se comete um erro absurdo com a finalidade de fazer outra coisa. “O combate é o caminho do engano”, como diz justamente SUN TSU.”
O combate se desenvolve seguindo as regras da natureza, é necessário conformar-se com estas razões e adversários, como nós, eles reagem segundo as próprias capacidades. A regra, no combate, não é da espontaneidade sem adestramento. A espontaneidade deve ser acrescida do adestramento até um nível que espontaneamente, na vida de todos os dias, comportando-se conforme as regras da natureza.                          

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

ITO ITOSSAI 1°Parte


                              ITO ITTOSAI


Ito Ittosai foi um grande mestre de esgrima de uma época anterior a de Yagyu Munenori (1571-1646). A escola de esgrima de Ittosai tinha uma importância semelhante a escola de Munenori, mesmo representando uma outra corrente. Se tem poucas notícias precisas sobre a vida de Ittosai, mesmo assim, muitos textos dos seus escritos chegaram até os nossos dias, confirmando o excepcional nível alcançado por ele na esgrima.
Estes escritos foram reunidos pelos seus discípulos, “Escritos sobre o mestre de esgrima Ito Ittosai”, que é o único documento escrito sobre este mestre.

Ito Ittosai, originário da região de Izu, estudou com o mestre Kanemaki Jisai e chegou ao último nível desta escola (Chu-jo).
Viajou por todo o Japão duelando trinta e três vezes com adversários de escolas diversas, vencendo sempre. O nível alcançado por ele é comparável a de uma divindade e é impossível descreve-lo. O lugar de sua morte é desconhecido.
Um dia Ittosai foi a um templo Xintoísta e ficou sete dias e sete noites com a finalidade de chegar ao último estágio do caminho da espada com a ajuda de alguma divindade do templo. Nada aconteceu e, na última noite, ele desesperado, resolveu se retirar do templo. Na saída sentiu nas costas a vontade de um ataque e golpeou atrás de si horizontalmente com a espada, assim sem pensar. Descobriu então que o agressor estava caído morto, com a espada na mão. Esta técnica, tornou-se o nível máximo da sua escola, que foi por ele denominada a espada do vazio, ou “Sem pensamento”.


Ittosai diz: “Na nossa escola, a técnica é fundamental. As técnicas devem ser fundamentas sobre as razões. Então, é necessário antes de qualquer coisa aprender bem as técnicas, ou seja, as diversas atitudes do corpo e do espírito. Em segundo lugar, é necessário entender bem as razões que levam a mudar de técnica segundo os atos do adversário.
Se treinar suficientemente as técnicas sem entender as razões, a vitória nunca é segura. Quando se entendem bem as razões e se treina suficientemente os fundamentos, as razões que foram entendidas mediante o espírito se refletem nas técnicas. As razões e as técnicas formaram então uma única entidade e não haverá mais diferença entre as razões e as técnicas.
  

Mas no treinamento da espada, tem pessoas que limitam-se em aprender a parte técnica, sem entender as razões, enquanto outros procuram entender as razões sem aprimorar as técnicas. Nenhuma das duas atitudes permite de reagir oportunamente e livremente contra um adversário.
Um verdadeiro adepto da espada aprende na própria vitória o que é a derrota e na própria derrota o que é a vitória. Desenvolvendo dentro de si as técnicas e as razões, e reagindo em função do adversário, entendendo quais são as técnicas e as razões deste.”
SUN TSU diz: “quando se conhece o adversário e a si mesmo, pode-se lutar cem vezes sem perigo. Quando você se conhece, sem conhecer o adversário, às vezes se vence, e às vezes se perde. Quando não conhece a si mesmo e nem o adversário, se perde sempre”.
A dignidade é a condição do homem que se preparou corretamente e que não se perturba dos atos dos outros. Ele não muda com a situação externa. A dignidade domina o adversário sem ação. Ao contrario, a impetuosidade domina o adversário com a ação. A dignidade é calma, mas compreende milhares de situações através do movimento. Este é o motivo pelo qual se deve enfrentar o adversário com dignidade, e ir com impetuosidade para a vitória. Dignidade e impetuosidade são duas coisas diferentes, mas quanto ao essencial elas formam uma única coisa. Quando se chega a não ser influenciado pelo adversário, a dignidade enche o coração, não se tem medo do adversário, não se tem duvidas sobre si mesmo e a impetuosidade se encontra no coração da mesma dignidade. Como diz Lao Tze (filósofo chinês): “Se faz tudo sem fazer nada “... E como diz P. Leminski (poeta e filósofo Brasileiro de Curitiba), em uma das suas obras: “Distraídos venceremos”.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

YAGYU MUNENORI- 3ª. e última parte


Munenori escreve: “para ser capaz de reagir com soltura e de forma oportuna deve-se possuir tanto uma capacidade psíquica quanto uma capacidade física, fundamentadas sobre uma técnica correta e nos mínimos detalhes, pois essas duas capacidades não são separadas, mas devem constituir uma única entidade, por isso, quando uma pessoa consegue essa capacidade, o seu espírito não adere a nada em particular, mas se estende sobre toda a sua existência, e ele será capaz de reagir oportunamente e livremente, sem se preocupar com as regras e convenções. Quando se enfrenta uma pessoa deste tipo, o atraso em extrair a espada da bainha, mesmo por um breve momento, significa a derrota”.

            ACREDITO QUE OS ESCRITOS DE MUNENORI NÃO FORAM ESCRITOS DE FORMA CIENTÍFICA E TORNA-SE DIFÍCIL SUA INTERPRETAÇÃO, OU TALVEZ FEITOS PROPOSITALMENTE POR SE TRATAR DE SEGREDOS FAMILIARES DA SUA ESCOLA. POR EXEMPLO: SOBRE O REFLEXO DA LUA SOBRE A ÁGUA, A LUA É UMA SÓ, MAS OS REFLEXOS SÃO MUITOS, TANTO QUANTO OS RIOS EXISTENTES OU MESMO QUANDO ESCREVE DA DISTÂNCIA DE LUTA QUE TEM QUE SER APRENDIDA DIRETAMENTE NA PRÁTICA.
            MUNENORY FOI MUITO INFLUENCIADO PELA DOUTRINA ZEN. FOI O PRIMEIRO A DIZER QUE A ESPADA E O ZEN SÃO DE CERTA FORMA, A MESMA COISA. DISSE ISSO DEPOIS DE TER ALCANÇADO UM NÍVEL MUITO ALTO NA ARTE DA ESGRIMA, APOIANDO-SE NO ZEN.
            COM AS ORIENTAÇÕES RECEBIDAS DE UM MONGE CHAMADO TAKUAN, ALCANÇOU UM ESTADO DE CERTEZA EM RELAÇÃO A SUA ARTE, OU SEJA, UMA ATITUDE EM QUE A VITÓRIA NÃO DEVERIA SER COLOCADA POR CONTA DO ACASO.
            OS ENSINAMENTOS DO MONGE TAKUAN FORAM TRANSCRITOS POR MUNENORY NO “FUDOCHI”. NO KARATE SHOTOKAN EXISTE UMA POSIÇÃO CHAMADA “FUDODACHI”, USADA EXPECIALMENTE NO KATA “SÔ-CHIN”, SÔ (VIOLÊNCIA OU FORÇA), CHIN (CALMA). ALGUMAS PASSAGENS DESTE KATA EXIGEM VIOLÊNCIA OU CONTEMPORANEAMENTE FORÇA E CALMA.

MUNENORI NO “FUDOCHI” ESCREVE:
O mais importante na arte da esgrima é a aquisição de uma atitude espiritual definida de “SABEDORIA IMUTAVEL”, Fudochi. É uma sabedoria que se alcança intuitivamente depois de longo adestramento na prática. ”Imutável” não significa rígido, pesado e sem vida, como uma rocha ou um pedaço de madeira. Significa o mais alto grau de mobilidade em volta de um centro imutável. A mente alcança então o mais alto ponto de vigor e pode dirigir a sua atenção em qualquer lugar onde seja necessário: a esquerda, a direita, enfim, em todas as direções necessárias. Quando a atenção está empenhada no movimento da espada do adversário que quer te cortar, se perde a primeira ocasião de ser o primeiro em executar o corte. Se você pensa, e tem dúvidas sobre o que deliberar, o inimigo se prepara para te cortar. Não se deve de forma alguma lhe dar tal ocasião. É suficiente seguir o movimento da espada do inimigo, mantendo o espírito livre de executar o contra-ataque sem que intervenha uma reflexão. Você muda quando o adversário mudar, levando o adversário à derrota. Isso é o que podemos chamar de atitude de não iniciativa, é o elemento mais vital na arte da esgrima, como também no ZEN. Se duas ações se executam a distância da espessura de um cabelo, existe uma pausa. No aplauso das mãos, o som sai sem um instante de hesitação. O som não espera, nem pensa antes de sair. Não existe meditação, um movimento segue outro movimento sem interrupção do mental consciente. Se você esta em embaraço e reflete sobre o que é conveniente fazer, está lhe oferecendo uma ótima ocasião para acabar com você. Na vossa defesa deve seguir um ataque sem um átimo de interrupção, assim não terá dois movimentos separados de ataque e defesa, (no karatê isso é chamado de TSUKIUKE, presente em vários katas). A imediata resposta da vossa ação levará fatalmente à derrota o seu adversário, uma derrota em que ele mesmo foi o causador.
É como um barco que desce docemente nas águas revoltosas de um rio, tanto no ZEN quanto na esgrima, um espírito que não hesita, não interrompe, e nem se interpõe é muito apreciado.
Frequentemente no ZEN, faz-se referências ao relâmpago ou as faíscas provocadas pelo contato de duas pedras. Se entender isso como uma forma de velocidade, se faz um grande erro. A idéia deve ser a de uma ação instantânea, de um ininterrupto movimento de energia vital. Quando se dá o lugar a uma interrupção em um setor que não esta em relação com a circunstância, pode estar certo que perderá a sua posição. Bem entendido, que isso não significa que se deseja cumprir as coisas rapidamente, ou no tempo mais breve possível. Se existe em você este desejo, a sua presença constituirá uma interrupção. Quando se pergunta: “Qual é a finalidade real do budismo?”, o monge responde imediatamente: “o galho de cerejeira florido”, ou: “o cipreste no jardim”. Existe algo de imutável no interno, que, todavia, se evolvem espontaneamente na sua presença. O espelho da sabedoria, (MEIKYO), reflete todas as coisas instantaneamente, uma depois das outras, mesmo estando imutável e sereno. O praticante deve cultivar isso.


PRÓXIMA POSTAGEM, ESCRITOS SOBRE O SAMURAI “ITO ITOSAI”.               

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Yagyu Munenori (2ª. parte)



Munenori escreve:

         Quando o adversário usa a espada com hyoshi (ritmo-movimento) amplo, e quando ele utiliza um pequeno, eu utilizo um amplo, com a finalidade de nunca estar de acordo com o ritmo do adversário. Se os ritmos são iguais não é conveniente, pois quem toma a iniciativa para mudar o ritmo leva vantagem, e vence.
         Uma vez que você tenha entendido os movimentos do adversário, pode-se reagir com facilidade. Até o momento da troca de golpes, não deve relaxar o espírito e pensar que o adversário está em estado de ken ( atacar). Tem que manter a calma (tai).  É necessário solidificar o próprio espírito na raiz.
         Ouvir a voz do vento e da água significa manter calma a superfície enquanto a profundidade do espírito esta ativa. Por si só, o vento não tem voz, mas tem voz somente quando toca alguma coisa. Então, quando o vento sopra no alto é silencioso, e, quando desce faz barulho tocando as árvores, as canas de bambu ou qualquer outra coisa. Então, torna-se barulhento e perigoso. Também a água, quando cai do alto não tem voz, adquire voz ao tocar os abjetos que estão embaixo. Sentir a voz do vento e da água significa manter a superfície calma e a profundidade ativa. A superfície é tranqüila, lenta, calma e a profundidade é ativa sem pausas. Não é bom mexer apressadamente o corpo, as mãos ou os pés. Sentir a voz do vento e da água corresponde às razões da natureza. De outro modo, quando se ataca violentamente na superfície é necessário que a profundidade do espírito não seja arrastada a tal violência. Assim, o movimento da superfície não perturba o espírito.
         Quando a superfície e a profundidade estão agitadas, você não age corretamente. Por isso, o espírito de atacar (ken) e o estado de esperar (tai), entendidos como movimento e tranqüilidade devem ser distribuídos equivalentemente na superfície e na profundidade.
         O pato parece tranqüilo, mas move continuamente as patas. É necessário treinar em manter o espírito vigilante, e ser que nem o pato que, na aparência é calmíssimo, mas movimenta as patas sem pausa. Somente então se chega a integrar os movimentos externos com o estado espiritual.
         Pensar em somente vencer é uma doença. Procurar unicamente uma técnica mediante o acúmulo de treinamentos é também uma doença. Querer somente atacar, ou se concentrar na espera, é também uma doença. Também é uma doença pensar em querer expulsar essas doenças. Por doenças, entendo um estado de espírito rígido. Essas diversas doenças estão no nosso espírito. Por isso, é necessário desenvolver um controle mental para se livrar delas. Pensar sem pensamento.
         Um monge perguntou ao seu mestre: O que é o caminho?. O mestre respondeu: O caminho é nada mais que o espírito de todos os dias. É um estado em que se expulsa todos os desejos do espírito e esse entra em uma condição de neutralidade. Por exemplo, quando se atira com o arco, o pensamento de acertar perturba o tiro e quando se usa a espada o pensamento de usá-la desvia a espada. Quando se escreve, o pensamento da caligrafia limita o traço. Quando se toca uma música, a vontade de tocar perturba a música. Em todos os caminhos, o verdadeiro CAMINHO não é aquele que é fixado no pensamento. Aqueles  que seguem rigidamente o Caminho não tem nada no coração. O espelho limpo não tem forma, por isso reflete tudo o que está na sua frente. O mesmo acontece com o pensamento de quem adquiriu o Caminho (DÔ). O vazio absoluto de pensamento lhe consente de reagir a tudo e este é o pensamento comum. E são os verdadeiros adeptos que cumprem todas as coisas com este pensamento comum.
         Antes de ver com os olhos, é necessário ver com o espírito. Isso é fundamental. Ou seja, se vê primeiro com o espírito, depois com os olhos, depois com o corpo, com os pés e com as mãos. 

Próxima postagem: última parte (Fudochi).

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Yagyu Munenori (1ª. parte)


Yagyu Munenori (1571-1646) se tornou o mestre de esgrima de uma família de Shogun e conseqüentemente adquiriu um importante poder político. Teve uma grande influência política e cultural sobre o terceiro Shogun Iemitsu (Shogunato de 1623-1651). O seu cargo foi transmitido aos seus descendentes, os quais se tornaram senhores feudais (no Império japonês, o Shogun detinha o poder efetivo e o imperador tinha um poder simbólico).
                   Transcrevo algumas citações do pensamento de Yagyu sobre a arte da espada:
“Quando se fazem treinos suficientes em todos os campos da luta, chega-se a mover as mãos, os pés, o corpo sem movimentar o espírito e sem pensar no treinamento; consegue-se incorporar o resultado de tudo livremente. Nesse estágio não se sabe onde está o espírito e tampouco os demônios tem a possibilidade de adivinhar o movimento do espírito. Todo o treinamento é feito com a finalidade de chegar a esse estagio. O que é mais importante, deve-se desenvolver destreza em tudo para esquecer o treinamento, e esquecendo tudo, age-se no modo mais apropriado, sem pensamento ou reflexão. Quando utilizo uma tática (finta) e o adversário não percebe que é uma finta, eu o golpeio e venço, mas se ele percebe que é uma finta eu uso uma outra. Nesse caso, venço o adversário fazendo com que a finta se torne o golpe verdadeiro.Quando um erro superficial age como uma abertura para alcançar a verdade, o mesmo erro se torna a verdade: este é um conceito contido na doutrina budista”.

A atitude de KEN e TAI (KEN = atacar, iniciar. TAI=esperar).

No inicio do combate se prepara com concentração em dar duros ataques e se procura golpear antes do adversário. Essa atitude é chamada de ken. Ao esperar sem atacar por primeiro, a essa atitude define-se de tai. Isso comporta uma prudência adquirida. No combate é necessário saber a diferença entre ken e tai. Entre o corpo e a espada existem importantíssimas relações de ken e tai. Você se aproxima do adversário com o corpo em estado de ken, mas se segura a espada em estado de tai, e, provocando-o com o corpo, os pés, as mãos. É necessário atacar primeiro e provocar o adversário para depois vencer. Essa era uma característica da escola da família Yagyu em prevalecer sobre o adversário, deixando que este ataque primeiro.
         Partindo desse ponto de vista, Munenori escreve:

Nas inúmeras variedades de táticas as fundamentais não são muitas, mas as principais são:
1)    Vencer quem não ataca, mas provocando o seu ataque; se vence no momento em que se ataca;
2)    Vencer no momento em que o adversário ataca;
3)    Para aqueles que conhecem a primeira técnica, mostrar um próprio momento de vazio e, ao seu ataque, vencer no momento que golpeia.

         Para Munenori existiam somente estas três técnicas. Segundo ele, esse momento de vulnerabilidade aparece fundamentalmente quando o adversário ataca. Aplicando-se ao Karate essa orientação, encontraremos três técnicas, que são as seguintes:

a)    Encontrar o momento de vulnerabilidade do adversário no instante em que ele lança o ataque. No karatê isso se designa com a palavra DE-AI. Uma forma de golpe de encontro, que acontece no instante de vazio, quando o adversário inicia o movimento.
b)    Quando o adversário não ataca, provoca-se o seu ataque fingindo de atacar, ou modificando a distância e o ritmo. Induz-se assim o adversário a se mexer, e se vence recolhendo o momento de vazio que aparece no início do movimento.
c)    Demonstrar ao adversário um próprio momento de vulnerabilidade e, quando ele ataca, golpeia-o.


         No karatê o bloqueio ou a esquiva não devem ser concebidos como uma simples defesa, mas como um meio para criar um momento de vulnerabilidade no curso de um ataque do adversário.

Próxima postagem (2ª. parte)... Mais pensamentos do Yagyu Munenori.